sexta-feira, 21 de maio de 2010

Respeito pelos livros e quem os escreve

Quem escreve um livro (seja que tipo de livro for) faz muito mais do que pôr palavras no papel: passa ideias e pensamentos mas, mais do que isso, dá ao leitor um bocado da sua alma, partilha um pouco de si. Ter a coragem e a generosidade de fazer isso é de uma beleza que talvez nem toda a gente consiga entender. É por isso mesmo que um livro e quem o escreve devem ser tratados com respeito. Este caso que vi no Nós por Cá revoltou-me particularmente. Vejam o vídeo e digam-me se não se trata de uma enorme falta de respeito para com o trabalho desta senhora.

terça-feira, 18 de maio de 2010

Matosinhos: uma cidade com História


Vivo em Matosinhos há 22 anos, praticamente a minha vida inteira (vim para cá viver aos 5 anos). Recentemente, ao ver um cartaz no metro que anunciava uma feira do livro em Matosinhos, percebi que sabia pouco sobre a História daquela que considero a minha cidade. Decidi pesquisar.

A povoação é anterior à fundação da nacionalidade portuguesa, pois já existia no ano de 900, chamando-se Matesinus. Em 1258, figurou com o nome de Matusiny nas inquirições de D. Afonso III. Pertencia, na altura, à freguesia de Sandim. D. Manuel I concedeu-lhe foral no dia 30 de Setembro de 1514. Em 1833 foi criado o concelho de Bouças, ficando nele incluídas as freguesias de Matosinhos e Leça da Palmeira, entre outras. A vila de Matosinhos, constituída pelas freguesias de Matosinhos e Leça, foi criada em 1853. Em 1867 foi criado o concelho de Matosinhos, voltando à organização anterior 20 dias depois. Em 1909 dirigiu-se um pedido ao governo para ser criado em definitivo o concelho de Matosinhos, por este lugar ser mais importante que o de Bouças. Desta forma, o concelho de Matosinhos foi criado definitivamente em 6 de Maio de 1909. Matosinhos foi elevado a cidade em 28 de Maio de 1984, 75 anos depois de se ter tornado concelho.

Na Alta Idade Média este território foi marcado pelo Mosteiro de Bouças, construído no século X e cuja fundação é anterior à nacionalidade. Foi ele que fez desenvolver todo o aglomerado populacional que encabeçaria a divisão administrativa do Julgado de Bouças, cuja fundação é anterior à nacionalidade. Localizava-se no litoral e a Sul do rio Leça e estava associado à Rainha Santa Mafalda, filha do rei D. Sancho I. Foi este rei que ordenou a sua destruição em 1306. No século XVI, a Universidade de Coimbra decide construir uma igreja em Matosinhos, hoje conhecida como a Igreja do Bom Jesus. As ruínas da velha Igreja de Bouças ainda existem, principalmente o muro. O lugar de Bouças ainda existe, ocupando as traseiras do Palácio da Justiça e sendo hoje conhecido como Rua do Convento. O Mosteiro de Bouças estava também associado à Lenda do Senhor de Matosinhos. Passo a transcrevê-la:
 
" A milagrosa imagem do Senhor de Matosinhos é, segundo a tradição, das mais antigas que se veneram em toda a cristandade.

Diz-se que esta imagem foi feita por Nicodemo, testemunha ocular das últimas horas de Jesus, e que, por esta razão é cópia fiel do rosto de Cristo. Segundo a mesma tradição, Nicodemo teria esculpido mais quatro imagens, hoje veneradas em vários locais do mundo, sendo a do Senhor de Matosinhos não só a primeira mas também a mais perfeita.

Nicodemo assistiu aos tormentos de Jesus e, depois da morte na Cruz, auxiliou José de Arimateia a descer o corpo. Juntos embalsamaram Cristo e depositaram-no no túmulo. José de Arimateia teria recolhido o sangue de Jesus no Graal e Nicodemo os instrumentos da Paixão, conservando em seu poder, por muito tempo, o sudário em que ficou gravada a imagem de Jesus.

A imagem de Matosinhos é oca no tronco, porque, diz a tradição, aí escondeu Nicodemo os instrumentos da Paixão. Realmente, os estudiosos da questão dizem que se se reparar bem, as costas são anteparadas de uma tela fina que se confunde com a matéria de que é feita a imagem, tela esta tão bem preparada que tem resistido à corrupção dos tempos. O mesmo material forma a toalha com que foi envolvido o corpo da imagem. A toalha, que desce da cintura cobrindo a perna direita até ao joelho e a esquerda até à canela, está tão ligada ao corpo que parece ter sido esculpida na mesma madeira daquele.

Nicodemo sobreviveu a Cristo muitos anos e sabe-se ter sido perseguido pelos judeus, que, em determinada altura, lhe confiscaram todos os bens. As perseguições aos cristãos de então correspondiam a igual perseguição às imagens e objectos por eles considerados sagrados. Por isso muitas foram escondidas em subterrâneos ou simplesmente atiradas ao mar para se salvarem das fogueiras a que estavam votadas.

Conta-se então que, tendo Nicodemo feito aquela a que depois se chamou Senhor de Matosinhos, a atirou ao mar para a livrar de perseguições. Desceu ao porto de Job, que fica nas costas da Judeia, no Mediterrâneo, e lançou-a ao mar. A imagem atravessou-o de nascente a poente, passou o estreito de Gibraltar e, já no Atlântico, rumou para norte, aportando por fim à praia de Matosinhos.

Nesta viagem, porém, a imagem de Cristo perdeu um braço. As populações, que então lhe erigiram, em Bouças, um templo, pouco se importaram com o pormenor e passaram a venerá-la sob a designação de Nosso Senhor de Bouças, pois desde logo lhe foram imputados vários milagres. Durante cerca de cinquenta anos, a bela imagem de Cristo agonizante na Cruz, com um olho meio aberto sobre a humanidade e o outro fitando o céu, apelando a seu Pai a salvação do Mundo, foi venerada sem o braço.

Diz-se, porém, que andava um dia na praia de Matosinhos uma mulherzinha a apanhar destroços trazidos pelo mar, para alimentar o seu lume, e viu um objecto que lhe pareceu óptimo para o efeito. Pegou nele, meteu-o no cabaz juntamente com outros bocados de madeira e voltou para casa.

Chegada a casa, ateou a lareira e deitou-lhe dentro o que lhe parecia ser um bocado de lenha. Mas o cavaco saltou para fora do lume. Insistiu a mulher e, tantas vezes quantas ela ali o deitou, o bocado saltava para fora.

Esta mulherzinha tinha uma filha que lhe nascera muda, segundo conta a lenda. Olhando para a criança, que fazia gestos aflitivos e abria a boca como quem quer forçosamente dizer qualquer coisa, a mulher, assombrada, ouviu-a dizer:

- Ó minha mãe, não teime em deitar isso ao lume! Olhe que é braço do Nosso Senhor de Bouças!

Atónita e amedontrada, por ouvir assim falar a filha, que nunca dissera uma palavra, e por ver a acha saltando da lareira, a mulher saiu de casa gritando que lhe acudissem. Vieram as vizinhas, às quais ela contou o que se passara, e, pegando respeitosamente no destroço achado na praia, foram à igreja ver se o que a rapariga dissera era verdade. E, ante o assombro de todos, o braço ficou tão ajustado à imagem que nunca mais ninguém pode saber qual deles alguma vez lhe faltara.

Assim acaba a lenda do Senhor de Matosinhos, primeiramente chamado Nosso Senhor de Bouças. No século XVI a imagem feita por Nicodemo foi mudada para Matosinhos, onde lhe construíram um templo maior e mais importante, apropriado às enormes romarias que há séculos lhe fazem e de tamanho mais condigno às ofertas que lhe trazem em agradecimento das graças concedidas."

Para escrever este texto consultei:
-
o site da Câmara Municipal de Matosinhos, para a parte que diz respeito à História da cidade;
-
o artigo "Ciclo «Novos Estudos Matosinhenses»: Bouças acolheu relíquia de Nicodemos", escrito por Dulce Salvador para a edição online do Jornal Matosinhos Hoje, para a parte que diz respeito ao mosteiro de Bouças;
- o capítulo intitulado "O Senhor de Matosinhos", no livro LENDAS PORTUGUESAS-VOL 1: LENDAS NORTENHAS, com texto de Fernanda Frasão, para a parte que diz respeito à lenda do Senhor de Matosinhos.

A Feira do Livro que referi no início está a ter lugar na Galeria Nave dos Paços do Concelho desde 15 de Abril e lá estará até 25 de Maio. Podem consultar o programa
aqui.

A fotografia que vêm no início é da rua de Brito Capelo, que é considerada a "baixa" de Matosinhos.